Povos germânicos migrantes se espalharam por toda a Europa na Antiguidade tardia e na Alta Idade Média. As línguas germânicas se tornaram dominantes ao longo das fronteiras romanas (Áustria, Alemanha, Países Baixos e Inglaterra), mas nas províncias romanas ocidentais, os imigrantes germânicos adotaram os dialetos latinos (línguas românicas). Além disso, todos os povos germânicos converteram-se, ao seu tempo, ao cristianismo. Os povos germânicos exerceram uma posição de importância na transformação do Império Romano na Europa da Idade Média, contribuindo no desenvolvimento de uma identidade comum, história e cultura que transcenderam as fronteiras lingüísticas.
Várias etimologias para a designação latina GERMANI são possíveis. Como adjetivo, GERMANI é simplesmente o plural do adjetivo GERMANVS (a partir de germen, "semear, disseminar", "desdobramento"), que tem o sentido de "parente" ou "aparentado".[2] Como um etnônimo, a palavra é comprovada pela primeira vez em 223 a.C. na inscrição de Fasti Capotolini, DE GALLEIS INSVBRIBVS ET GERM, onde ela simplesmente se refere a povos "próximos" ou relacionados aos gauleses. Se o nome próprio posterior GERMANI deriva desta palavra, a referência a este uso deve ser baseada na experiência romana de ver as tribos germânicas como aliadas dos celtas.
O nome aparece sendo usado pela primeira vez com o sentido de "povos da Germania, distintos dos gauleses" por Júlio César. Neste sentido, o nome deve ser um empréstimo do exônimo celta aplicado às tribos germânicas, baseado em uma palavra para "vizinho". Uma terceira sugestão deriva a palavra diretamente do nome da tribo dos Hermunduri, que Tácito sugere possa ter sido o nome de uma tribo que mudou de nome após o domínio romano, mas não há indícios para isto.
A sugestão que deriva o nome do termo gaulês para "vizinho" leva ao irlandês antigo gair e ao galês ger, "próximo",[3] ao irlandês gearr, "uma distância curta", a partir do radical proto-celta *gerso-s, também relacionado ao grego antigo chereion, "inferior" e ao inglês gash, "corte, arranhão".[4] O radical proto-indo-europeu deveria ser da forma khar-, *kher-, *ghar-, *gher-, "corte, machucado", do qual também deriva o hitita kar-, "corte, machucado", de onde também o grego character.
Aparentemente, as tribos germânicas possuíam uma auto-denominação (endônimo) que incluía todos os povos germano-falantes e que excluía todos os povos não-germânicos. Os povos não-germânicos (principalmente celtas, romanos e gregos, os cidadãos do Império Romano), por outro lado, eram chamados *walha- (esta palavra sobreviveu em nomes como Wales (Gales), Welsh (galês), Cornwall (Cornualha), Wallons (valões), Vlachs (valáquios), etc.).
O termo genérico *þiuda- ("povo") (ocorre em muitos nomes pessoais tais como Thiud-reks e também no etinônimo dos suecos a partir do cognato do inglês antigo Sweo-ðēod) não é uma auto-designação. No entanto, o adjetivo derivado deste nome, *þiudiskaz ("popular"), foi usado em referência à língua do povo em oposição à língua latina (mais antigo exemplo registrado em 786). A palavra persiste no alemão Deutschinglês Dutch ("neerlandês"), no neerlandês Duits ("neerlandês") e Diets ("alemão") e no dinamarquês tysk ("alemão"). A partir de c. 875 os escritores latinos referem-se à(s) língua(s) germânica(s) como teutonicus ("teutônico"). Daí o uso inglês da palavra Teutons ("teutões") em referência aos povos germânicos em geral, além da tribo específica dos teutões, derrotada na batalha de Aquae Sextiae em 102 a.C. ("alemão"), no
O conceito de "Germânico" como uma identidade étnica distinta foi indicado primeiramente pelo geógrafo grego Estrabão [1], que diferenciou um grupo bárbaro no norte da Europa, que não era celta. No entanto, foi Posidônio o primeiro a usar o nome, por volta de 80 a.C. em seu desaparecido 30º livro. O nosso conhecimento disto é baseado no 4º livro de Ateneu, que em cerca de 190 citou Posidônio: "Os GERMANI à tarde servem à mesa carne assada com leite, e bebem seu vinho não diluído".
No século I, as obras de Júlio César, Tácito e de outros escritores da época indicam uma divisão dos povos germano-falantes em grupos tribais centralizados em:
- Nos rios Oder e Vístula (Polônia) (tribos germânicas orientais);
- No baixo Reno (istvaeones);
- No rio Elba (irminones);
- Na Jutlândia e nas ilhas dinamarquesas (ingaevones).
Os lingüistas, trabalhando a partir das historicamente conhecidas línguas germânicas, sugerem que este grupo falava o idioma proto-germânico, um ramo distinto da família de línguas indo-européias. As características culturais da época incluem povoações pequenas e independentes e uma economia fortemente baseada na pecuária.
O deslocamento para o sul foi provavelmente influenciado por uma piora no clima da Escandinávia entre 600 a.C. e 300 a.C.. O clima quente e seco do sul da Escandinávia (2 a 3 graus mais quente que hoje), piorou consideravelmente, o que não apenas modificou dramaticamente a flora, mas também forçou as pessoas a mudar seu modo de vida e abandonar suas povoações.
Por volta dessa época, essa cultura descobriu como extrair ferro das jazidas nos pântanos de turfas. Sua tecnologia para obter minério de ferro deve tê-los ajudado na expansão para novos territórios.
A cultura germânica cresceu para sudeste e para sudoeste, sem paradas repentinas, e pode ser diferenciada da cultura dos celtas que habitavam mais ao sul nas regiões do Danúbio e Alpinas no mesmo período.
Primeiros contatos
Estátua de Pier Gerlofs Donia, auto-intitulado "Rei de todos os frísios". Famoso rebelde e combatente da liberdade de tamanho e força lendários.
A penetração germânica no Império Roman
- Primeira fase - Migrações (até o século V): corresponde ao período em que se os povos bárbaros migraram, de forma lenta e pacifica, para os domínios do Império Romano. O próprio governo romano estabelecia acordos com os povos bárbaros, permitindo-lhes fixar-se dentro das fronteiras do Império. Muitos desses germanos chegaram a ingressar em unidades auxiliares do exército romano, somando forças na defesa das fronteiras de Roma. Alguns chefes bárbaros atingiram, inclusive, postos de comando, estando incumbidos de missões militares especiais no interesse do Império. Assim, com o tempo, ocorreu uma progressiva "germanização" do exército romano. Este fato começou a gerar inquietação entre os romanos, a ponto de membros da elite de Roma, tomados pelo medo, mostrarem ao imperador que "estavam sendo protegidos por um exército composto por homens da mesma raça que nossos escravos".
- No governo de Diocleciano (284 a 305), soldados germanos passaram a ser regularmente recrutados para servir nas legiões do Império Romano. As autoridades imperiais procuravam rodear as fronteiras de chefes bárbaros aliados, que mantinham a independência, os usos e os costumes, mas defendiam os interesses romanos diante do mundo germânico e eram recompensados com dinheiro e terras.
- Segunda fase - Invasões (a partir do século V): corresponde ao período em que os povos bárbaros invadiram o Império Romano, por meio de infiltrações ameaçadoras, violentas e brutais. O fator de ordem externa que mais colaborou para desencadear as invasões germânicas foi a chegada, à Europa, dos hunos, que eram guerreiros extremamente ferozes. Povo nômade vindo da Ásia Central, por razões não plenamente esclarecidas, os hunos entraram em conflito com germanos ostrogodos, aniquilando suas estruturas sociais. Fugindo da fúria dos hunos, boa parte dos ostrogodos emigrou em direção ao oeste europeu, para a região ocupada por outro grupo de germanos, os visigodos.
Por volta do século IV, a "Assembléia dos Guerreiros" praticamente desaparecera entre os bárbaros, substituída por um "Conselho de Nobres". O contacto cada vez maior com o Império levara-os a assimilar bastante a vida económica, a hierarquia social, a disciplina militar e a religião dos romanos (muitos bárbaros haviam-se convertido ao Arianismo, ramo do Cristianismo considerado herético pelo Concílio de Nicéia, realizado em 325). Mesmo assim, as suas comunidades ainda eram bem rudimentares e quase todas desconheciam a escrita.
A partir de fins do século IV, pressionados pelos hunos, povo nômade vindo da Ásia Central, as tribos germânicas migraram em massa e de uma forma não pacífica para o interior do Império Romano do Ocidente. Suevos, alanos, burgúndios, francos, vândalos e visigodos penetraram, saquearam e ocuparam a Gália, a Península Ibérica, a África e a Itália. Anglos, saxões e jutos tomaram a Britânia. Para defenderem Roma dos sucessivos ataques de determinadas tribos, os Imperadores recorriam ao auxílio de outros chefes bárbaros, ficando à sua mercê. As invasões germânicas trouxeram desordem, destruição, fome e pilhagem ao já decadente Império Romano, precipitando a sua desintegração no final do século V.
Características
Os povos germânicos não estavam organizados socialmente em Estados, mas em comunidades tribais.A estrutura social básica era a família monogâmica, cujo poder absoluto era confiado ao pai. Depois, vinham os clãs, compostos pela reunião de famílias aparentadas, com ascendentes comuns. Finalmente, vinham as tribos, formadas pelo agrupamento de vários clãs. O órgão público mais importante de cada tribo era a "Assembléia dos Guerreiros", que deliberava sobre assuntos como a declaração de guerra ou de paz, a libertação de prisioneiros, os crimes de traição e a expulsão de membros da tribo.
Nas tribos germânicas, os chefes (reis) exerciam funções religiosas, militares e judiciais. Embora sua autoridade se submetesse à Assembléia, esses chefes assumiam poderes quase absolutos em tempos de guerra. Além disso, tinham o direito de manter uma tropa pessoal (séquito), composta de experientes e fieis guerreiros, que se tornou, com o tempo, cada vez mais numerosa.
A partir do século I de nossa era, podem-se distinguir nessa sociedade quatro classes sociais:
- Nobreza: ocupava postos de direção na tribo;
- Homens livres: classe composta pelos guerreiros portadores de armas e com direito de expressar suas opiniões nas assembléias;
- Homens semi-livres: classe constituída por membros de populações vencidas em guerra, excluídas do povo livre pelo fato de não pertencerem aos clãs tribais;
- Escravos: formados por prisioneiros de guerra, por filhos de escravos e por devedores insolventes.
Os germanos não conheciam cidades nem Estado. A mais importante instituição política era a "Assembléia dos Guerreiros" da tribo, que decidia sobre a guerra, a paz, a libertação dos escravos e escolhia o rei, com função religiosa e militar. Os principais chefes desenvolveram o costume de manter uma "escolta" ou "séquito" de guerreiros, ligados ao líder por um juramento de fidelidade. Em caso de ataques e lutas, eram recompensados com o produto das pilhagens, dando origem a uma nobreza possuidora de terras e escravos.
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